Introdução
A ideia principal deste documento é apresentar o Projeto Político Pedagógico e o plano de ação pedagógica antirracista da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Grão de Chão.
Nossa prática está pautada na crença de que a diversidade, as especificidades individuais e coletivas, sociais e culturais devem ser valorizadas e tratadas com respeito, pois garantem a compreensão do mundo de forma mais ampla e integrada, rica em manifestações e potenciais.
A produção de um ambiente escolar pautado em valores éticos, igualitários e democráticos, necessariamente, passa pela elaboração de uma pedagogia que: combate o racismo e todas suas formas de representação e opressão; fomenta o desenvolvimento de epistemologias que tenham como base um processo real de mudança em nossa sociedade e de (re) encantamento com o mundo, pois como já dizia Ângela Davis, “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.
Acreditamos que a educação básica tem o papel de mostrar, de forma interdisciplinar, que o racismo e as discriminações são realidades presentes em nossa sociedade e precisam ser entendidas e enfrentadas desde cedo. Além disso, é essencial que a escola ofereça caminhos para cultivar atitudes antirracista
Este projeto envolve toda a comunidade escolar — direção, coordenação, equipe docente, funcionários administrativos e famílias. Contamos com grupos de reflexão e uma assessoria especializada para apoiar e orientar o processo em cada etapa, garantindo que todos estejam engajados e alinhados com os objetivos do projeto.
Justificativa
Habitamos uma nação que, durante grande parte de sua história colonial, desconsiderou a humanidade e qualquer rastro de sensibilidade à população negra. Pertencemos a um tipo de organização social que, em seu passado, expulsou a população africana das centralidades urbanas e proibiu seus descendentes de habitar, circular, trabalhar e coexistir nos espaços comuns da cidade. Participamos de uma sociedade que apostou no processo de miscigenação para eliminar qualquer traço negro da cultura e da memória nacional. Para além disso, vivemos em uma nação que investiu em um projeto político de extermínio sistêmico e programático de pessoas negras como as bases estruturais de seu desenvolvimento social, político e econômico.
Carlos Hasenbalg (1982), considera que a produção social da raça e o racismo persistente nas estruturas materiais e nos condicionantes imateriais, são reproduzidos cotidianamente nas relações sociais. Esses fenômenos têm grandes efeitos: atingem diretamente os direitos básicos e as condições humanitárias dos negros brasileiros; promovem desigualdade, inúmeras barreiras e persistentes obstáculos raciais que colocam os descendentes dos povos africanos às margens da sociedade brasileira.
Denis Martins (2022) alega que existe uma íntima relação entre raça, território e classe social. Para o autor, a partir dessas distribuições são produzidos os marcadores sociais da exclusão, que são salientados pelo racismo estrutural, que produzem uma política administrativa de Estado que, em seu horizonte, mantém corpos negros como elementos passivamente desclassificáveis e atrelados a um sistema de abundantes e diretivos dispositivos de diferenciação, que são o motor do desenvolvimento territorial, social, econômico e político da cidade de São Paulo e de todo o território nacional.
Tomando ciência desse projeto racial e dos estruturantes organizacionais contidos na produção da sociedade brasileira, é necessário problematizar o racismo e suas manifestações em todas as esferas, acentuadamente no âmbito escolar. Problematizar o racismo dentro da escola e evitar os silenciamentos desses fenômenos é um dos pilares de uma Educação democrática.
Segundo Maria da Glória Calado (2021), as situações cotidianas vividas trazem à tona a necessidade de trabalhar com o combate às discriminações no interior da sala de aula. Nesse sentido, a dificuldade em romper o silêncio tende a continuar pela falta de formação consistente para enfrentar os conflitos latentes, pela necessidade dos educadores saírem da zona de conforto e lidar concretamente com as situações que são apresentadas, pela complexidade da ideologia racista internalizada nas mentes e objetivadas em ações, por sermos todos frutos de um constructo da ideologia racista.
Cabe às escolas particulares fazer a reparação e criar um ambiente escolar pautado em valores éticos, igualitários e democráticos, com uma pedagogia que combate o racismo e todas suas formas de representação e opressão; fomenta o desenvolvimento de epistemologias que tenham como base um processo real de mudança em nossa sociedade e de (re) encantamento com o mundo; que promova o conhecimento e respeito pautado nas diferenças e na diversidade individual, coletiva, social e cultural da humanidade.
Objetivo Geral
Com base na BNCC, nas leis de Diretrizes e Bases da Educação e nas Leis federais 10.639/03, produzir e organizar um modelo pedagógico que vise a Educação antirracista como base estruturante do projeto educacional da Escola Grão de Chão.
Ações efetivas do Projeto Político Pedagógico ligado à diversidade étnico-racial na Grão de Chão:
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Avaliação das relações raciais na escola, feita em 2022 com toda a comunidade, que seguiu a metodologia “Indicadores da Qualidade na Educação – Relações Raciais na Escola”, proposta pela Ação Educativa e Liga Interescolas por Equidade Racial.
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Relatórios semestrais avaliativos, feito por consultor contratado pela escola, que faz a análise a partir de observações e o contato regular com a equipe, de itens como: grau de letramento, valorização da identidade e da estética não-branca, fomento da empatia, alteridade e compreensão racial, análise crítica dos conteúdos curriculares, reunião com o grupo docente, representação e diversidade nos materiais e atividades, Inclusão de diferentes perspectivas, experiências interculturais, desconstrução de estereótipos, parceria com as famílias e comunidade, parceira com o Coletivo Antirracista Semente.
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Formação, informação e reflexão referente às questões étnico raciais proporcionadas ao corpo docente, à direção, à coordenação, à equipe administrativa e às famílias da comunidade escolar, por meio de reuniões específicas, leituras, cursos, vídeos, troca de experiências e palestras com especialistas e assessoria especializada.
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Política de bolsas integrais e parciais para crianças negras e indígenas para promover a diversidade no ambiente escolar e uma educação de qualidade para todos/as.
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Equipe formada por professore/as, auxiliares de sala e estagiários negros/as e indígenas para que haja equidade racial entre os funcionários e para que as crianças negras e indígenas e suas famílias tenham referência racial e sintam-se acolhidas.
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Coletivo Semente - grupo formado por membros das famílias e equipe da escola para pensar e efetivar ações antirracistas e captar recursos financeiros junto à comunidade escolar. O coletivo auxilia a escola no mapeamento e potencialização de ações antirracistas já existentes e na produção de novas ações individuais e coletivas voltadas para uma Educação Antirracista.
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Participação de membros do Coletivo Semente da Liga Interescolas por Equidade Racial.
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Currículo escolar sistematicamente avaliado e reformulado com a colaboração da equipe pedagógica e assessoria especializada.
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Projetos interdisciplinares nas áreas do conhecimento e linguagens artísticas com abordagem sistemática da Cultura Negra, Cultura Indígena, Cultura Popular Brasileira e do Mundo, com abordagem voltada para a diversidade cultural e social da humanidade.
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Práticas pedagógicas que possibilitem o enfrentamento do preconceito e da discriminação racial, na medida em que permitem desconstruir os estereótipos e preconceitos raciais presentes na formação das subjetividades dos envolvidos no processo educativo.
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Biblioteca da escola com livros que apresentam a cultura negra e autores negros, temas antirracistas e a diversidade social e cultural da humanidade. A organização e potencialização da biblioteca é feita com a colaboração da equipe pedagógica e de assessoria especializada.
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Biblioteca Circulante com livros que apresentam a cultura negra e a diversidade cultural. Os livros são emprestados pela escola semanalmente às crianças que, dessa forma, levam a temática étnico-racial para dentro de suas casas para que sejam motivo de reflexão pela família.
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Acervo de materiais e brinquedos visando a diversidade étnico-racial.
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Materiais internos de pesquisa e análises sobre Educação Antirracista produzidos junto à direção, coordenação e equipe pedagógica com assessoria especializada.
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Ações de sensibilização das famílias e da comunidade sobre:
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a urgência e importância social de repensarmos nossas relações raciais;
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a necessidade de incentivar a participação de ações antirracistas dentro e fora da escola;
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criação de uma rede de seguridade afetiva e emocional para todas e todos envolvidos no processo das ações antirracistas da escola.
Este Projeto Político Pedagógico tem o compromisso de promover e assegurar uma educação infantil que respeite e valorize as diversidades, fortalecendo o ambiente escolar inclusivo e acolhedor para todas crianças, famílias e colaboradores. Acreditamos que é fundamental construir uma escola onde o conhecimento, a cultura e as identidades diversas tenham espaço e respeito, permitindo que cada criança se reconheça e desenvolva sua autoestima, pertencimento e o reconhecimento das nossas diversidades desde a primeira infância. Em nossas práticas integramos saberes, sabores e vivências que ampliam as visões de mundo e fortalecem as relações humanas de nossas crianças e de seus familiares. Dessa maneira, o desafio é construir uma base sólida para que a escola não seja apenas uma instituição de ensino básico e formal, mas também um ambiente sadio que inspire valores para a promoção de uma sociedade mais justa e plural, formando as crianças para serem agentes dessa transformação.